Guilherme Floriano
Hoje Denis teve um dia cheio. Trabalhando na linha de produção de Plastinil, uma empresa de injeção de plástico, ele ganha bem até, mas se estraga um bocado.
Sua filha quer comprar uma boneca que viu na TV. Ele passou no 1,99 do Willian, que fica no caminho entre a empresa e sua casa. A boneca estava num preço absurdo. Mas ele tinha de comprá-la, ele e Mariana planejaram a gravidez. Ele prometeu para si mesmo que ia fazer de tudo por Ana, sua filha, que agora tem 4 anos e quer uma boneca cara pra cacete.
Sua esposa, Mariana, quer um par de sapatos novos, Ferretos, uma marca que Denis já sabe de antemão, ser a mais cara da cidade. Mesmo assim ele passou na Ferretos sapatos, e mesmo sabendo que o preço seria caro, se assustou, deixando isso bem aparente á moça que lhe atendia, de cabelos ruivos e ondulados, pele branca e batom preto.
- Essa loja realmente não é pra uma família como a nossa - pensou Denis, enquanto caminhava para fora da loja, depois de ter dito "obrigado moça" para aquele jovem.
Denis prometeu para Mariana que á faria feliz, e naquele campo do lado do rio, os dois se beijaram e marcaram seus nomes num tronco de uma cerejeira, envolto por um coração. Denis sabia que não poderia falhar. Mas também sabia que os setecentos reais não iriam comprar nada disso.
Deitado na cama, esperando Mariana vir do mercado ele sussurra.
- Eu não tenho dinheiro, não posso comprar nada disso nem se eu pagasse em "mil vezes".
"uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa"- sussurra uma voz masculina e levemente aguda.
Denis salta da cama, parece voar para cima. Esta assustado e horrorizado, mas mesmo assim abre a janela bruscamente.
Já é noite, e escuridão é a única coisa que Denis vê pela janela.
Já é noite, e escuridão é a única coisa que Denis vê pela janela.
De repente um homem se levanta e aparece na janela, de chapéu "coquinho" e preto, óculos, terno estilo anos 50 e empoeirado demais á ponto de Denis conseguir ver o esvoaçar da poeira quando aquele homem se levantou repentinamente.
- O que é isso? - pergunta Denis não para o homem mas sim para toda a situação.
- Eu estava passando por aqui e ouvi você, Denis certo? - pergunta alegre e sorridente, de olhos arregalados e esperançosos.
- Si..sim - gagueja Denis - o que você quer?
- A pergunta não é o que eu quero, mas sim, o que você quer - diz apontando o dedo, comprido demais para ser real.
- Co..como assim? - pergunta Denis assustado, franzindo a sobrancelha e contorcendo os lábios.
- Bem. Você trabalha em uma empresa que não te paga o suficiente para fazer a sua família feliz, e está tendo alguns problemas com isso - diz ele se apoiando na janela do quarto como se estivesse dentro de um carro. Olha com o canto dos olhos, vira o rosto rápido - Estou certo?
- Sim - concorda Denis, olhando para o chão.
- TCHARAMMM! - murmura o homem, de nariz afinado, rosto magro e queixo levemente comprido. - Aqui está, o contrato - fechando os olhos de leve e sorrindo com o canto da boca, puxando de repente uma folha de papel de baixo de "não sei onde".
Denis, parecendo mudar de uma hora para outra, vai até o homem.
- Qual o seu no...
- Pssssssssssssssssssss- interrompe - apenas leia.
Denis leu o contrato, e depois de lê-lo, voltou os olhos para o homem novamente.
- Aqui está - disse o homem, segurando uma caneta preta com a ponta dos dedos.
- Sim - retruca Denis, agora já parecendo ser outra pessoa, não achando aquilo estranho ou insano.
Talvez nada importe mais, só fazer Ana e Mariana felizes. Á qualquer custo.
Talvez nada importe mais, só fazer Ana e Mariana felizes. Á qualquer custo.
Denis assinou o primeiro nome, e pode ouvir a porta da frente abrindo e o vento gélido invadindo a casa.
- Denis? - pergunta Mariana do outro lado da casa.
Denis assina o segundo nome mais rápido. Depois de assinar fica de pé e espia pela fresta da porta e consegue ver Mariana tirando o casaco de sua filha .
- Vamos querida, vamos contar para o papai - ele sorri com esperança, pensando em tempos melhores.
- Vamos querida, vamos contar para o papai - ele sorri com esperança, pensando em tempos melhores.
Sem perceber o papel voa para fora da janela com o vento. Denis tenta pegá-lo se esticando pela janela, mas o papel é mais rápido e voa para o alto e para longe.
Em uma investigação rápida por fora da janela, Denis percebe não haver mais ninguém ali.
Denis toma distância da janela, e percebe que a caneta sumira de suas mãos.
A janela se fecha tão bruscamente quanto foi aberta.
Mariana e Ana gritaram da sala. E Denis pode escutá-las vindo correndo.
- Oi querido tudo bem? - diz Mariana Sorrindo como nunca.
- Sim - diz Denis disfarçando.
- Eu amei o presente! - diz Mariana com um sorriso lindo e uma caixa com um embrulho vermelho parcialmente rasgado por ela, dava para ver que era o sapato que ela queria.
Denis se arrepiou, e sorriu forçosamente.
Denis se arrepiou, e sorriu forçosamente.
- Eu também papai! - diz Ana no fundo do corredor, abraçando uma caixa grande e retangular com um embrulho colorido.
- É aquela boneca né papai? - sorrindo feliz.
- É aquela boneca né papai? - sorrindo feliz.
De repente Denis parece ter esquecido o que tinha lido no contrato, as palavras uma vez contidas lá, ficaram agora nubladas em sua mente.
Não conseguia lembrar de uma só frase. Só daquele homem estranho que apareceu ali de repente.
Não conseguia lembrar de uma só frase. Só daquele homem estranho que apareceu ali de repente.
As duas saem do quarto alegres. Saltitando.
Mas Denis.
Ah, Denis, Denis.
O que você fez Denis.
Uma risada medonha e distante, á uns dez quilômetros dali ecoa no quarto, e na mente dele.
Denis sente que somente ele á escuta.
Denis sente que somente ele á escuta.
