Todas as formas de produção cultural tem, como pano de fundo ou "inspiração", uma espécie de espirito do tempo: valores, princípios e idéias que estão intimamente ligadas ao contexto histórico em que elas estão inseridas. Com as histórias em quadrinhos não é diferente.
As origens do Superman e do Capitão América trazem isso no seu centro, para ficar em dois exemplos simples e de editoras diferentes. O primeiro, criado numa época onde os EUA precisavam se solidificar como grande potência, às vésperas da segunda guerra mundial, é a perfeita combinação de homem moralmente incriticável e herói mais poderoso da Terra. Assim como o Superman dos quadrinhos, para os norte-americanos a missão dos EUA seria o de defender e levar a paz para todos os cantos do planeta. Já a figura do Capitão América surge num momento um pouco diferente, porém igualmente patriótico. Sua origem também remonta à Segunda Guerra, porém com o conflito já iniciado, e visava auxiliar no recrutamento de novos soldados para o campo de batalha. Mais uma prova que as HQs não se desenvolvem à parte de seu período histórico. Falei disso nesse vídeo e eu acho que vale a pena dar uma olhada pra entender melhor cada era dos quadrinhos desde o seu início.
Em um roteiro mais atual, temos como interessante exemplo dessa já citada relação entre HQ e o momento social em que ela se encontra, a aclamada "Guerra Civil" da Marvel. Essa historia, que não à toa leva o nome do maior conflito envolvendo norte-americanos, discute a delicada relação entre individuo e o sociedade.
É de conhecimento geral que após o 11 de setembro a política de segurança americana sofreu um grande endurecimento. Os atentados às Torre Gêmeas levaram à morte de milhares de pessoas e justificaram algumas mudanças que limitaram em muito a liberdade individual e direcionaram o belicismo americano para os estrangeiros (notadamente de origem árabe) e para todos que não possuíam feições "americanas". Foi justamente no início do século 21 - mais precisamente em 2006 - que a "Guerra Civil" surgiu nos quadrinhos.
O primeiro acontecimento relevante para a Guerra Civil foi a explosão de uma escola de Connecticut e ficou conhecido como "Incidente de Stamford". Qualquer semelhança com o 11 de Setembro NÃO é mera coincidência, caro leitor. Por conta dessa tragédia, o governo norte-americano decretou a lei de registro dos super-humanos que obrigava a todos aqueles que possuíssem algum poder especial - basicamente Vingadores e X-Men - a se alistarem. Em troca desse alistamento, todos teriam um treinamento especial para dominar de forma plena os seus poderes, além de passarem a ter direitos trabalhistas. Na prática, virariam membros dos exército norte-americano.
Após essa lei ser aprovada, a comunidade heroica se dividiu em dois pólos: de um lado do debate, aqueles que julgavam correta a medida do governo e que a liberdade individual deveria se submeter à segurança da sociedade; no lado oposto, se encontrava o grupo contrário ao registro e que considerava abusivo esse tipo de controle por parte do governo. A primeira vertente era representada por um Tony Stark poderosíssimo tanto como herói, quanto como político. Como figura central do grupo de oposição - pasmem - estava o já mencionado Capitão América.
Podemos dizer que, em termos de posicionamento político, ambos representavam os dois lados de uma mesma e conflituosa moeda. Nos quadrinhos e fora deles. Eram metáforas para o debate que dominava a sociedade americana pós-2001. E as relações não param por aí: em inúmeras situações podemos perceber nas entrelinhas a questão da diversidade sendo discutida dentro da história da Marvel. Super-heróis não são humanos. A própria origem dos X-Men como grupo remonta à essa problemática e serve de linguagem figurativa para a questão dos estrangeiros e das minorias dentro dos EUA...esse tema também volta com força em "Guerra Civil".
Seria possível apontar inúmeros outros exemplos, histórias não faltariam. Para o momento nos cabe entender que toda manifestação cultural - e os quadrinhos são parte disso - sempre carrega em seu íntimo uma grande influência do seu ambiente e de suas discussões atuais. Entender um quadro, um livro ou um quadrinho, portanto, é entender nossa época e seus valores. Mas, acima de tudo, é entender a nós mesmos.
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