Conto | Coisas estranhas - Tudo que eu tenho são trinta anos e um carro amaldiçoado

14:28 by Unknown

De
Guilherme F.

Sabe, é difícil de aceitar quando se completa trinta anos. 
Quando se tem família é mais fácil, mais reconfortante. Quando não se está envolto de amor, ou seja da família, nada adianta.
Nada importa.

O serviço nunca rende, por que o dinheiro nunca comprará amor.
Mas agora eu tenho trinta anos. Completei trinta anos hoje. É doloroso.
Com o tempo, tudo vai ficando mais suportável. Por favor, que seja.

Meu pai e minha mãe me abandonaram quando eu tinha 15 anos. Fui morar sozinho em uma construção abandonada perto da casa de meus pais. Eles nunca aceitariam um traficante dentro de casa. Não deu nem tempo de eu pedir perdão e propor uma mudança, o negócio foi tenso aquele dia.

Não gosto de lembrar daquele dia. Mas toda vez que completo mais um ano de vida, eu lembro, mesmo não querendo, o dia gira em torno dessas lembranças. Lembranças amargas.

O que eu consegui dessa vida? Dinheiro. Muito dinheiro e tudo que ele pode comprar. Tatuagens marcando as épocas. Épocas amargas, que como as tatuagens, nunca sairão de dentro de mim. Sempre estarão lá batendo na porta e enchendo o saco. Apertarão a campainha e sairão correndo.

Os pais sempre se perguntam onde erraram, mas os filhos que passam a vida tentando solucionar essa questão.

Depois que eu aluguei uma casa, as coisas começaram a melhorar. Uns carinhas ali do bairro começaram a repassar a droga pra tudo quanto é canto que se pode imaginar. O dinheiro começou a entrar, mas quanto mais dinheiro eles traziam pra mim, mais de mim saia porta á fora, pra seilá onde.

 Não sei para onde foram os meus pedaços. Pareço estar vazio e frio por dentro.

Um dia eu sai de dentro de casa pra fumar um cigarro, e um gato estava sentado em cima do muro. Eu acendi o cigarro, já era de noite, mas eu conseguia ver que era um gato preto.

Não liguei, fiquei indiferente, até que ele começou a falar. Dei alguns passos para trás, fui até dentro de casa e peguei uma calibre 12 detrás do armário. Abri a porta com o cano da arma e fui devagar para a banda do gato.
Talvez alguém estivesse usando o gato para me assustar, sussurrando de trás de algum lugar. Mas vasculhei tudo, e não havia ninguém ali.

- Onde foi que você errou Henrique? - disse o gato, com uma voz jovial e masculina.

Ele estava de costas para mim, e eu respondi: Como assim?

 - Como assim o que?! - retrucou ele - Seu desalinhado de uma figa! - ralhando.

Eu me assustei á beça, mas ainda pude dizer: O que você quer? - com energia - fale logo! E saia daqui.

Ele, ainda de costas, disse amargamente, agora de cabeça baixa - Você é um traficante, Henrique, um cara fora dos trilhos. E não aceita isso, mas continua errante, com toda velocidade que se pode alcançar nessa vida.

Ele despencou suavemente para o chão, para o lado de fora do muro.

- Tudo o que você tem é dinheiro e um carro amaldiçoado - murmurou alto o bastante que eu consegui ouvir.

- Como sabe sobre o carro? - perguntei.

Ele caminhou elegantemente, e aos risos ele desapareceu nas sombras.

Seria ilusão? - pensei, terminando aquele cigarro -  Mas como ele sabia sobre o carro?

Onde eu errei? 
Essa é uma pergunta sem respostas.
Ninguém tem respostas para questões assim. Nós somos uma caixa de surpresas. Nada pode justificar onde estamos na linha do tempo, ou o que fazemos.